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Olá, muito prazer.

Eu sou a Fernanda e criei esse espaço pra trazer textos e escrever sobre Patrimônio Cultural, mas de uma forma que extrapole o aspecto técnico.


Dentro do Patrimônio Cultural sempre houve espaço para o subjetivo. Aliás, sem ele o Patrimônio é vazio.

E como nem sempre o que temos pra dizer cabe num artigo científico, um blog me pareceu ideal. Então vou contar uma história agora que reflete um pouco do que estou planejando para esse espaço.


Em 2016 ou 2017, quando participava de um Congresso sobre Paisagem Cultural, na UFMG, em Belo Horizonte, assisti uma fala da qual nunca me esquecerei. Como o autor não estava previsto na programação não consegui achar seu nome depois. Anotei no bloquinho do dia e perdi esse rastro.


Ainda tento, de vez em quando, recuperar esse nome, e acho que um dia dou de frente com essa ponta solta. Enfim, era um homem que foi apresentar seu trabalho sobre as relações materiais e imateriais entre arquitetura e a obra de Guimarães Rosa. Eu fiquei emocionada com a fala do homem que também estava claramente e tremulamente emocionado. Aliás, todo o trabalho dele só foi possível porque havia emoção. Havia encantamento e poesia, e isso permitiu que ele olhasse para uma tesoura de telhado que precisava ser restaurada, e percebesse que pela vista da janela alinhada com a tesoura a Serra que se via ao fundo tinha a silhueta perfeita de uma das peças do carro de boi, tão presente na obra de Rosa, e então pôde propor uma tesoura que fosse assim também, no formato da peça do carro, no formato da Serra. São esses detalhes que me fascinam.


Nessa mesma fala o homem contou a historia do Grivo, um personagem que aparece em algumas histórias, entre elas uma novela chamada Cara-de-Bronze, de 1969, publicada no livro No Urubuquaquá, no Pinhém. O personagem recebe uma ordem do seu patrão para sair em busca de algo que só os dois sabem. Entre muitas especulações dos outros vaqueiros da fazenda, uma se destaca e acerta em cheio: o Grivo está procurando o Quem das coisas. E é por isso que eu digo que não esqueço essa fala. Procurar o Quem das coisas foi precisamente o que aquele homem fez na tesoura do telhado, e é precisamente o que nós, agentes da preservação do patrimônio cultural fazemos. Estamos sempre em busca do Quem das coisas.

Quando estava planejando esse site, eu pensei em chama-lo de Grivo, pra sempre me lembrar de qual é o meu papel como profissional. Qual é a minha missão. Quais são os meus valores. Essas coisas que a gente tem que pensar quando está criando um CNPJ. Acabei mantendo meu nome mesmo, a pessoa física, com orgulho do Silva que carrego em mim, mas não perco de vista que por traz de muito trabalho técnico existe um Quem que só se faz através dos nossos olhares sobre aquilo que é intangível à matéria.

E é isso que eu espero trazer para esse espaço.


Um pouquinho de Quem em coisas que eu vir por aí.



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